quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Dicionário de Itarareense




DICIONARIO ITARAREENSE – De Santa Itararé das Artes Por Atacado


Dicionário do POVO DE iTARARÉ

Deusolivre - Termo utilizado largamente um todo tipo de conversa , expressa afirmação negativa categórica. (Ex.: Deusolivre que eu vou no cemitério a noite !)
Xééé - Nem pensar , de jeito nenhum , de forma alguma . (Ex.: Você vai trabalhar Domingo ?? - Xééé !!!!!)
Óia - Olhar algo , veja , preste atenção. (Ex.: Óia só que coisa !!!)

Úia - Olhar coisa ou pessoa interessante , chamar atenção para algo especial . (Ex.: Úia que belezura !!!!)
Cornetear - Falar alguma coisa de outra pessoa , algo parecido com "fofoca". (Ex.: O Walter estava Corneteando o Primo ontem )
Ataque de bicha - Expressão que representa um momento de nervosismo .. (Ex.: Ele me deixou tão atarantada que me deu um ataque de bicha !!!)
Póde Erguê - Não vou fazer , nem pensar de jeito nenhum. (Ex.: Preciso que você vá à pé até a cidade. - Póde Erguê que eu vô !!!!!)
Gorfá - Vomitar . (Ex.: Acho que bebi demais , vou Gorfá !!!!)
Quaiá o Bico - Dar muita risada . (Ex.: O pião tomou um Capote e eu Quaiei o bico !!!)
Vô chegando - Ao contrario do que parece é utilizado quando você vai embora , esta saindo (Ex.: Bom pessoal a festa tá boa , mas Vô chegando !! )
Reganhera - Estado letárgico que geralmente ocorre logo após o almoço, moleza , soneira.(Ex.: Comi 3 pratos de feijoada e me deu uma Reganhera daquelas)
Furdunço - Confusão , normalmente relacionada a festas (Ex.: Tava lá na festa e de repente começou uma briga...foi o maior Furdunço !)
Isgueio - Palavra utilizada para identificar uma ação que não ficou aprumada em linha reta. (Ex.: Ela foi estacionar o carro e ficou de isgueio .)

Fianco - A mesma coisa que Isgueio .

Farfanho- entrou meio na lateral (Ex. estacionei de farafnho na rua)

Vai rendê - Vai dar certo , algo que vai funcionar. (Ex.: Hoje eu vou no baile , vai rendê !!)
Carçá - Palavra que indica comer alguma coisa para matar a fome. (Ex.: Vô carçá o estomago , antes de sair prá balada !!)

Erguida - Levar uma bronca . (Ex.: Quebrei o prato e tomei a maior erguida da mãe !!!)
Pial - O mesmo que Erguida , uma bronca , chamar a atenção de alguém . (Ex.: O Zé chegou as 3:00 hs de pé melado e tomou o maior pial da patroa.)
Dormiu - tudo aquilo que se encaixa perfeitamente .(Ex.: O guarda-roupa que ganhei dormiu na parede do quarto .)

Posá - Dormir em algum lugar .(Ex.: Posso posá hoje aqui ??)
Espeloteada(o) - Pessoa elétrica que tem temperamento forte , birrenta . (Ex.: Essa menina é muito Espeloteada !!!!)
Capote - Cair , escorregar , tombo , queda . (Ex.: O Cara fez a curva e tomou o maior Capote !!!)

Trincar o côco - Tomar todas , beber até cair . (Ex.: Hoje eu vou no bar e só saio quando trincar o côco !!!)

Melá o pé - O mesmo que trincar o côco. (Ex.: O marido da Mariquinha Méla o pé todo dia no Bar !!!)

Bissurdo - Absurdo , inaceitável , incrível . (Ex.: Essa coisa de seqüestro é um bissurdo !!!!)

Fiótão - Pessoa menos preparada , sem experiência , meio bobo . (Ex.: Olha lá a besteira que ele fez !!! Só podia ser Fiótão mesmo .. )
Muquiado - Ficar escondido no canto , na espreita .(Ex.: O João fico Muquiado a noite toda prá pegá a mulher dele no flagrante !)

Orná - Que combina , fica bom com algo mais . (Ex.: Vou comprá essas roda aro 17" !! Vai orná na pick-up )

Chovendinho - Dia ou noite com chuva fraca , quase uma garoa ..(Ex.: O cara tomou o capote porque tava Chovendinho !!!)

Pior que é - É isso mesmo , concordar plenamente .(Ex.: Eu acho que o João é frutinha . Pior que é !!!!)

Frutinha - Rapaz delicado que não demonstra sua masculinidade (Ex.: Olha só !!! Andando desse jeito só pode ser Frutinha !!!)

Euem - Não vai fazer , participar ou falar algo . (Ex.: Você foi no velório ontem !!! - Euem tá loco !!!)

Bico ¹ - Cara meio atrapalhado , pessoa que faz besteiras freqüentemente. (Ex.: Aí o Bico foi lá e tomou o maior fora da garota !!!!)

Bico ² - Olhar, avaliar. (Ex.: Dá um bico se essa peça tá ok. )
Bicão - aquele que não foi convidado (Ex.: Quem é aquele cara de camisa laranja e rosa, boné verde e vermelho? Acho que veio de bicão na festa)
Forfé - Bagunça , agitação . (Ex.: Fui no baile e tava o maior Forfé !!!)

Namorandinho - Estar com alguém , namorar firme . (Ex.: O Fábio está namorandinho a Joana !!!!)

Sartei de Banda - Deixar de fazer algo (Ex.: Você foi ajudar a encher a laje na casa do João ? - Euem Sartei de banda !!)

Virô um Rebosteio - Termo utilizado quando tudo dá errado. (Ex.: Eu tava na marginal e a agua do rio começou a subir eu tentei sair e não deu, Virô um Rebosteio!)

Fervo - Local agitado , festança legal . (Ex.: E aí , vamos no Fervo hoje na casa do Manezinho ??!!)

Oreia Sêca - Utilizado para designar uma pessoa ignorante , simplório .. (Ex.: Esse é um Oreia Sêca mesmo , não tem jeito !!!!)

Samiá - O mesmo que semear , espalhar algo . (Ex.: O Zé foi no quintal Samiá o milho .)

Revertério - Define mal estar , estar passando mal . (Ex.: Comi aquela maionese e me deu o maior Revertério !!!)

Morgá - Não fazer nada , ficar paradão como um lagarto no sol .. (Ex.: Hoje não tô afin de fazer nada , vou Morgá o dia todo .)

Lagartear - O mesmo que Morgá .

Zé Ruela - Pessoa que só faz besteira . (Ex.: Esse cara é um Zé ruela mesmo , dá uma olhada na besteria que ele fez!!!)

Pórva - Pessoa ou coisa que não presta , que não tem qualidade . (Ex.: Comprei uma calça jeans marca Pórva mesmo .)

Páia - Tem duplo significado , pode ser o mesmo que Pórva e também pode ser mentida . (Ex.: Esse cara só conta Páia , não acredite nele !!)
Páiero - É o mentiroso .

Tropinha - O mesmo que gangue , bando , galera .(Ex.: Vamos reuniar a Tropinha prá pegar ele depois da aula !!!)

Dar uns Péga - O mesmo que ficar ou tirar um sarro com alguem . (Ex.: Hoje vou Dar uns pega na Maria depois da missa !!!)

Paroqueada - Conversa mole , papo-furado , conversa sem interesse.(Ex.: Ah !! o Mané fica no bar a tarde toda só na Paroqueada com os outros.)

Castelá - Dar em cima de uma garota. (Ex.: Vô Castelá aquela loirinha ali !! )

Estorvo - Tudo que atrapalha , inclusive pessoas que atrapalham. (Ex.: Aquele Bico é um Estorvo !!!!!)

Manguaça Véia - Expressão utilizada normalmente quando um indivíduo sofre uma queda uu um tropeção por qualquer motivo . (Ex.: Eh!!! Caiu de novo Manguaça Véia !!!!)

Saír vazado - Atitude de todo bundão que apronta alguma e depois dá cagada. (Ex.: O dono do carro tá vindo aí, sai vazado !!!)

Treta - Expressão usada quando o indivíduo arruma confusão.(Ex.: Passei uma conversa naquela menina e namorado dela ficou sabendo , deu a maior treta.)

Furar o Zóio - Enganar, tirar vantagem (Ex.: O Túlio vai me vender um módulo por 300 reais, será que está furando meu zóio?)

Migué - Às vezes substitui a palavra "xaveco". (Ex.: Aquela tava difícil, tive que jogar a maior migué nela pra conseguir o que queria.)

Azesquerda ou Asdereita - Termos utilizados normalmente para definir direções a serem tomadas em algum caminho. (Ex.: Você então vira Azesquerda e depois Asdereita e segue em frente.)

Catando Coquinho - Termo utilizado em uma situação em que a pessoa quase cai e consegue se levantar . (Ex.: Aquele carinha , tomou em tranco do Tonhão e saiu catando coquinho .)

Nervo - Termo utilizado quando a pessoa está irritada ou nervosa com algo ou alguem.(Ex.: Aquele Oreia sêca que trabalha comigo só faz besteira e eu tenho que consertar , isso me dá um Nervo !!!!!)

Vaidalá - Termo utilizado para informar que um caminho te levará onde você quer ir.(Ex.: E se eu pegar a Rua Mascaranhas Camelo , vaidalá ??? - Ahh vaidalá tambem !!!)

Pare com isso - Termo utilizado largamente um todo tipo de conversa, expressa solicitação veemente. (Ex.: Você é um gato sabia !?? Não fale isso, pare com isso !!!)

MÓ - Expressão designativa de grandeza/intensidade. = Muito. (Ex.: O clube que nóis fumo ontem é "mó" legal !!)

Subir lá em cima / Descer lá em baixo - Reforço de afirmação. Pra garantir que a pessoa realmente suba pra cima e não para baixo, ou desça pra baixo e não para cima. (Ex.: Eu subi lá em cima prá pegar as caixas e depois eu tive de descer tudo lá em baixo !!!)

Putaquelamerda - Expressão de espanto. Susto.(Ex.: Putaquelamerda, que susto ! )

Viela - Expressão comum usada em afirmações. (Ex.: Eu viela hoje .)

Ceroto - Sujeira do nariz. (Ex.: Menino !!! pare de tirar ceroto do nariz !!!!)

Piririca - Aquela sujeira escura que fica nas dobras da pele dos seus filhos, depois de brincarem o dia todo na rua. O mais famoso é o cordão do
pescoço. (Ex.: Vá tomar banho menino !! Olhe só , você está cheio de piririca !!!!)

Atarantado(a) - Estar ou deixar alguém nervoso . (Ex.: Aquele moleque deixa a mãe dele atarantada !!!)

Arriá uma massa - ir ao banheiro para fazer suas necessidades fisiológicas. (Ex.: Cadê o André ? Ele tá no banheiro , deve tá arriando uma massa !!)

Bufa - Palavra que identifica o ato de exalar gazes . (Ex.: Hummmm que cheiro é esse ? Alguém soltou uma Bufa aqui !!!)

Gaitiá - Palavra utilizada para definir quando alguém muda de voz durante uma conversa (Ex.: Xééé , o Ronaldo tava falando no telefone e deu umas gaitiadas)

Diapé - Palavra que identifica uma forma de se locomover. (Ex.: Você vai de carro ou Diapé ?)

Dordeperna - Expressão utilizada para identificar dores nas pernas. (Ex.: Ontem fui trabalhar Diapé e hoje tô com muita Dordeperna )

Embruião - Designa aquele que não é confiável , também aquele que não gosta de trabalhar. (Ex.: O Chico tá desempregado de novo ! Também é um baita Embruião ! )
Gambé ou Os home - Pseudônimo dado aos policiais. (Ex.: Ihhhh sujou, os gambés! ou "Olha a barcona, os home...os home")
Barcona - Viatura da polícia. (Ex.: Acima)
Guéla - Duas situações, fofoqueiro ou falastrão. (Ex.: OLha rapaz, você fica falando pra todo mundo, pare de dar guéla)
Truta forte - Amigo, parceiro . ( Ae, esse aí é truta forte)
6V - Ato de fazer a devolução de algo emprestado. ( Raimundinho, esse gaguhio é 6V...vai, volta, voando, viu...viado, véio)
Baguhio - objeto (Ex.: acima)
Castelá - olhar (Ex.: Castele, castele aquela mina; é uma petequinha)
Petequinha - garota bonita (Ex.: acima)
Desacorçoado - enjoado, desanimado (Ex.: Pô meu, tou desacorçoado com esse cara, ele é o maior por fora)
Por fora - chato, inconveniente (Ex.: acima)
Carcada, chamada, pito - chingo, chamar a atenção. (Ex.: Nossa, tomei um pito da professora - Tomei uma chamada do guarda)
Piabada, chacoalhada, vareio - perdeu feio ( haha, seu time tomou uma piabada ontem)
Ceva - dois sentidos: cerveja (Ex.: E aí, vamos no boteco tomar uma ceva?
Mio - mancada, pisou na bola ( O marquinho foi na lanchonete, ficou bêbado e deu o maior mio )
Bichera- má qualidade, ruim (O que você está pagando com essa bike Michelzinho? Essa bicheira!)
Pagando - se mostrando, se aparecendo (Ex.: acima)
Nervoso - potente (Ex.: O Jabá colocou um motor novo no carro dele, o carro ficou nervoso )
Serrote ou segueta- pidonho, aproveitador (Ex.: Tava na boa na padaria comendo um lanche, daí chegou o Carlão e me pediu um pedaço, o cara é serrote)
Bandeira - vacilar, desatento (Ex.: O Raimundinho tá lá na esquina, fica dando bandeira)
Fio - se dirigindo a pessoa com certo nervosismo (Ex.: Já coloquei meu fio!)
Miuda - quieto, no lugar (Ex.: O Pardal já tá começando ficar puto, vou ficar na miúda)
Puto - bravo (Ex.: acima)
Pegou de brabo - firme, pesado (Ex.: O Maicon precisava terminar aquele trampo logo, pegou de brabo)
Trampo - trabalho, serviço
Dois palito - rapido (Ex.: Vou buscar o violão, é dois palito)
Lagartão - aquele que faz serviço pesado, puxa saco. (Ex.: OLha o Juarez, desde cedo carregando aqueles fardos de 50Kg, é um lagartão mesmo)
Bicão - aquele que não foi convidado (Ex.: Quem é aquele cara de camisa laranja e rosa, boné verde e vermelho? Acho que veio de bicão na festa)
É o bicho - ótimo, de qualidade ( Cara...veja o celular novo com câmera que comprei, é o ultimo lançamento, é o bicho)
Roça - encrencado (Puts! Cobrei o Xandinho perto dos camaradas, agora ele quer tirar satisfações; tou na roça)
Nhaca - ressaca, mal disposto (Ex.: Tomei todas ontem, hoje eu tou uma nhaca)
Tiozinho - pessoa mais velha, idoso, coroa (Ex.: Não sei quem foi, eu vi aquele tiozinho mexendo no baguhio)
Vaza - dois sentidos: mancada, vacilo ou vai embora, retire-se rapidamente(Ex.: 1 - Dei uma cantada na mina do Marião, dei vaza, será que vou apanhar?
2 - Não sou macaco gordo, mas vou quebrar o galho de vocês, não vou lhes aplicar a multa, mas vaza daqui, sai vazado... vai....vaza, vaza...seus vagabundos!)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Poema Para Manoel Alonso Junior, Teleco, de Itararé-SP




Teleco Sete Cordas

Para Teleco, Manoel Alonso Júnior
Boêmio Inesquecível de Santa Itararé das Artes

Poema-Homenagem, In Memoriam

Lá vem o Teleco com o seu violão
Dedilhando um belo samba-canção
Ao lado do Fernando Milcores
Harmoniza o ar com sua sinfonia

Teleco Sete Cordas foi parceiro do meu Pai Antenor
No conjunto regional da Igreja Cruzada
Também esteve solando o nosso chão de estrelas na boemia
De Santa Itararé das Artes toda emperiquitada

Teleco era tranqüilo, sereno, um grande amigo
Trazia uma serena candura consigo
Enquanto varava as noites Itarareenses
Nos bares o violão e a turma, a parceria
Com essa gente seresteira que queria
Passar o tempo; a fauna notívaga de Itararé

Lá vem o Teleco Sete Cordas
Com seu violão companheiro
Com seu jeito todo lueiro
Pontuando momentos e canções
Em bares cheios de gente alumbrada
Lá vai o Teleco dormir que é madrugada
A lua na noite de Itararé desfila alada
E ele vai recarregar a bateria
Para o forfé de um novo dia...

Um dia o Teleco parou com o seu violão
Foi tocar Chão de Estrelas pra Deus
E nos deixou com uma baita saudade até
Mas quando o vento de noite pinta o caneco
A gente acha que é o saudoso boêmioTeleco
Visitando o palco iluminado de Itararé

-0-

Poetinha Silas Correa Leite – Santa Itararé das Letras
Anos 100 da Escola Tomé Teixeira Em Comemoração
Entra Aluno, Sai Cidadão
– Site
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E-mail: poesilas@terra.com.br
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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Romance DEUS DE CAIM, um clássico de Ricardo Guilherme Dicke




Pequena Resenha Crítica


Livro ‘DEUS DE CAIM” - Estágios Escuros de Vivências Romanceadas com Estilo e Furor
Ricardo Guilherme Dicke, Prêmio Walmap, Magnífica Literatura Arrojada em seu Esplendor Literário


As batalhas nunca se ganham. Nem
sequer são travadas. O campo de
batalha só revela ao homem a sua
própria loucura e desespero, e a vitória
não é mais do que uma ilusão de
filósofos e loucos.

Wiliam Faulkner, O Som e a Fúria



O cavernoso romance (novel?...) “DEUS DE CAIM” do surpreendentemente estupendo escritor Ricardo Guilherme Dicke, agora muito apropriadamente relançado em alto nível pela LetraSelvagem, na coleção Gente Pobre, sob a organização do escritor-editor Nicodemos Sena, bem faukneriano e contemporâneo ainda, destila verbos, venenos, e inventaria brumas da relação ser/sociedade, vida/morte, amor/dor, fantasia/frustração, carne/espírito, dilemas/sentido e percepção, moendas (interiores)/engenhos (de almas atribuladas), tormentas pertinentes/insanidades comportamentais arrazoadas, Deus e o diabo no húmus entre Pasmoso e a profunda cauda narrativa que flui com densa liquidez expressionista/existencialista, e os cárceres das tentativas. A prosa do espaço, a dialética do exterior e do interior “as geografias solenes dos limites humanos”(Paul Éluard) e a porção carbono-C rusoé de cada ser. E Nelly Novaes Coelho (crítica literária, USP) já no início do livro ricamente editado já muito bem levanta panos e tintas:
“O homem interrogante; aquele que sonda o vazio existencial (...); em Dicke predomina a sondagem dos escuros do homem (...); Deus de Caim escava fundo um dos interditos que alicerça a civilização cristã ocidental (...); tempo de caos; romance labiríntico (...)”.
Toda arte de alto nível é cheia de pontos de interrogações como se propositalmente desinterligados. A arte de escrever nos leva a afirmação da vida em nós. Lágrimas não ficam para sementes, senão na arte? É melhor ser triste do que arrogante. Quatrocentas páginas de puro deleite que, explorando o fluxo narrativo (em júbilo?) do autor, vai de casa a casa, de ambientes a embustes, de fachadas a desfrutes, do historial ao fabuloso, entre o espanhol ao francês, nacos de poesia propositalmente semeadas, levantando lebres, apontando sítios letrais e escavando horrores quase que impossíveis de serem silenciados. Escrever é teatro de ocupação?
Artista plástico e filósofo, de pai alemão, Ricardo Guilherme Dicke pintou sua literatura de tintas brilhantes, novíssimas para a época em que foi inventada, um épico com cargas humanas, demasiado humana, como diz, fragmento de ensaio a respeito do livro (Ronaldo Cagiano):
“Nos 21 capítulos da obra a história da família Amarante vai se desdobrando numa colcha de retalhos de situações conflituosas e metaforizam a própria historia do Brasil (...)” (In, Carlos Herculano Lopes, Caderno Pensar, Estado de Minas, 06/02/10).
Aliás, Hilda Hist o considerava “um gigante”. Caim, Abel, Lázaro; personagens desbiblificados entre sombreados com querelas, acontecências, traições, taras; a vida nua e crua revelando sinais de pânicos e disfarçando conflitos, neuras. A par disso, bem pintados, filosofados, livros bons acabam joias preciosas. O medo nos delimita? Existe mais insanidade do que sensatez na vida, nas cargas dos ombros dos homens, no mundo. Somos todos espécies transfiguradas de paisagens com passagens de agonias, sonhadores ao extremo, não moscas-de-frutas. O Deus de Caim soma tantos pontos de interrogações até sobre palavras não ditas; dadas a entender.
“Romance capaz de abalar a nossa ficção” - (Guimarães Rosa). O âmago das crueldades destrinchadas em núcleos cênicos e traços existenciais carregados de ferramentas de crueldade e características psicológicas. Os arquétipos da fantasia e de uma loucura surda, enviesada, tudo em DEUS DE CAIM, a partir do mote de um irmão atentando contra o outro. A realidade é mais embaixo.
A consciência, a inconsciência, o que afinal resta dos refinamentos de uma ótima ótica para ver/sentir/; escrever com domínio da pena. Dicke naturalmente arrasa quarteirões, expõe as vísceras de momentos retratados, mas, ainda assim, com a ótica apurada de um pintor, desqualifica e expressa o horror (de viver?); teatro de ocupação reinando o tempo todo, num vareio de linguagem. Você só acredita porque está lendo. Como é que pode? No mundo da fantasia os monstros engordam parágrafos; na verdade, sangue/suor da dura e inominável vida real. Real?
Contundente, impoluto, altamente criativo, perspicaz, denso, e ao mesmo tempo de uma fineza extraordinária. É difícil ler Dicke e ficar indiferente. Não há neutralidade na sua leção. A atônita realidade captada em parágrafos que vão embora... Realidades sentenciadas com estilo e alto pendor estético, num talento literário surpreendente, agora reconhecido. Quem sairá do labirinto do livro sem se impressionar com as virtudes?
A história fala de nós, segundo Horácio, em sua sabedoria latina. Às vezes temos demônios e anjos à flor da pele. Nas dissonâncias há mais pureza do que no estojo linear das ideias. A arte de buscar o incompreensível nos leva à afirmação da vida. É o paradoxo de sobreviver além da sentição, e campear o lado pensador do humanus. A meditação não é escrachante quando aponta o humano vagando em suas erranças existenciais e sublógicas. Pode isso?
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“(...) Lembremos que toda pessoa tem o direito à vida, não é? Mas de onde lhe advém esse direito? Da Bíblia. E tirá-la, é claro, equivale a tirar um direito fundamental que constitui, desde o tempo de Moisés, violação à lei (...). O problema é este – chegar-se a um plano utópico em que não haja necessidade de leis e necessariamente todos os preconceitos se tornarão cinza inútil, relegada aos museus da morte e das coisas extintas. Imagine o que é não existir nem poeira desses preconceitos de agora que tanto nos martirizam, imagine uma cidade futura e ideal, em que todas as aspirações e inibições que jazem em nós sufocados, reprimidos e inexprimidos, aliadas à técnica elevada à perfeição, o que não seria! Por enquanto só algo mui longínquo disto se delineia em algumas obras de artes. Aliás, toda obra de arte é utópica” (Pg 135).
Você lê se palpitando no entressombreado do livro Deus de Caim e as cinzas aqui e ali soturnas das horas, relações e desmontes de significâncias, e reserva para a sua surpresa seduzida, um lugar para uma nova releitura ainda mais significante a seguir, e quiçá compreenda melhor, inteiro, se isso for possível, como a obra que vale o peso, a fama, a própria paixão de ler e de escrever. Obra única, feito um Cem Anos de Solidão, O Perfume, Baudolino, Invenção de Onira, A Espera do Nunca Mais, Vidas Secas, Grandes Sertões: Veredas. A narração é a redenção?
“Lidando com uma simbologia a que ele dá um sopro vital, fora do comum, Dicke não deixa coisa alguma de fora (...). O homem de fora está cercado de outra mundologia, as realidades violentas e subversivas da narração de Dicke envolvem com rapidez. Sexo e morte são evidentes (...). (Antonio Olinto, da Academia Brasileira de Letras). O ser humano precisa sentir sua exata sensação de estar e ser no mundo. Dicke tira pertencimentos das trompas da cólera, do desamor, da vida fugaz em sua saciadade de aproximação com estados calamitosos. Nada é impossível para ele. Desde Caim e Abel, a história nos fez acorrentados a culpas e sentimentos de medo e opressão.
A irrazão humana. A emoção humana tão desnaturada. Surpreende-nos Dicke em cada parágrafo, mesmo quando a narração ou enfoque vara páginas de limbos. A invisível esquizofrenia costumizada da apática sociedade decadente e falsificada para consumo. O biscoito da vida não é da sorte, não é de vida plena. Lágrimas não são guloseimas. Sentir dói. Em que lugar ficamos livres de tantos nós, senão nas asas da literatura? Bruce Hood dizia: “Nascemos com o cérebro desenhado para encontrar sentido no mundo. Esse desenho às vezes nos leva a acreditar em coisas que vão além de qualquer explicação natural.”
Uma obra clássica como Deus de Caim não se explica, mas se justifica pela excelência do autor. Em esmerada edição agora pela LetraSelvagem, Ricardo Guilherme Dicke é resgatado no auge do que a sua historicidade criativa congrega e vem-nos assim reeditado em sua maior obra-prima. Os porões da alma clarificados. Os subterrâneos da vida distinguidos com sua pena distinta, singular. Os sótãos de cabeças e sentenças nominados. É incrível a “lógica” funcional do escritor extremamente crítico, irônico, criativo e, claro, agora mais do que nunca, cult.
Literatura pura, de primeiríssima qualidade. Não há babel, bezerro de ouro ou cepo de Abrahão que esconda o sortilégio e o trágico fruto de Caim que vem enlutando a história da humanidade desde os primórdios. Escrever é pagar um preço? Escrever não é apenas cutucar onça com vara curta, é soltar todos os bichos. E Dicke faz isso muitíssimo bem, assustadoramente muito bem, liberta os seus (os nossos?), abre as comportas de seus próprios diques criativos interiores. Ah os escuros recônditos das almas embrutecidas com a fúria de ter que comparar, sobreviver, parecer que é o que não é.
E o Deus de Caim - que paira sobre todos nós – acode para uma leitura a altura, exige atenção pontuada, ao mesmo tempo olhar de remanso, para deguste e assim se poder sacar o esconderijo das ideias que ventila, ramifica, aponta e crava com o crivo de uma criação única. E quem sai ganhando é o leitor que se envolve dele, surpreso com a qualidade que custa assentar. Não é fácil. A vergonha, o incesto, a mentira, a dissimulação, o que pode parecer bizarro ou sexista. Quer mais humano do que tudo isso?
O estado decrépito do ser enclausurado em suas mesmices, masmorras e memórias cênicas, filosofando sobre conjecturas ou o que poderia ser e não foi, muito além das fronteiras das almas e seus estágios vivenciais estarrecedores. Ou seja, a humanagente no seu viveiro de contrastes. Vejamos a pintura literária:
“(Considerações, entretexto) O vermelho é a paixão e a força telúrica do Sol Matrogrossense, o azul são as paixões da noite e o negro a melancolia do sangue remotamente flamengo. O amarelo é a ânsia, o ouro, o desejo e as outras coisas nunca alcançadas. As formas que lembram labirintos e meandros ora são vegetações, ora caminhos, ora nervos em expansão, ora o ideal de um laboratório em que busco as equações de um mistério, de um nepentes ou de um descobrimento perfeito. Quero que quem os veja sinta uma contração pulsar e repulsar. E ao mesmo tempo, indague o que é o mundo – com múltiplos e infinitos signos estranhos – o que é o mundo, estas linhas, estas cores, esta massa, este movimento, este ser. Rilke disse que uma obra de arte é de uma solidão infinita. Quero pois que quanto mais solitário melhor. Cada qual encontre um pouco de seu eco que se perd e. É a natureza que recrio – e se fosse Deus – assim a recriaria – e é a relembrança dos países que não fui, no tempo das harmonias. É minha alma e a sua capacidade de entender alguma coisa que em mim não se perde para sempre, como as outras coisas que se perdem para jamais. É a poesia que não fui. As cores que eu amo e minha intenção de buscar entender o efêmero (...)”. Pg 251.
A extravagante literatura caudalosa (e por isso mesmo ocasionada de parágrafos em narrativas angustiantes) de Dicke; uma pintura extravagante de situações sociais em ermos e fugas, estados espúrios, de decomposições da efêmera vida social e sócio-familiar, quase árido, ou, como diz João Ximenes Braga (In, Dicke: o vôo da eternidade): “Dicke realiza uma estranha alquimia de política com metafísica na temática, e de realismo social como barroco no estilo (...) E ainda há intervenções de personagens místicos que o aproximam do realismo mágico (...)”. Pois Deus de Caim é uma soma disso tudo, e surpreende nos entremeios, na narrativa, nos belíssimos enfoques que o autor destaca e desenvolve com a paleta da escrita que mistura tintas de situações e aparências entre cores de convergências sociais apontando embustes; tirando etiquetas do armário, uma espécie as sim de romance-ensaio se reportando a conflitos, traumas e sequelas da natureza humana em decadência.
Um dos maiores romances escritos no Brasil, e mesmo tendo sido inicialmente lançado e premiado há cerca de quarenta anos atrás (Prêmio Walmap 1967), permanece muito atual, como toda obra de arte que se supera superando o tempo real, indo além de sua época como consagração de vanguarda e reconhecimento de talento e estilo próprio. Ricardo Guilherme Dicke, assim, escreveu um épico num estilo raro, único, onde concilia fluência e domínio absoluto da linguagem e da criação em seu esplendor, a verdadeira arte romancesca. Bravo!
___________
Silas Correa Leite
E-mail:
poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net

quinta-feira, 25 de março de 2010

Nunca Estarei Só - Poema-Letra de Rock de Silas Correa Leite




Nunca Estarei Só (Poema Querendo Ser Letra de Blues)

“Escrever é preciso
Viver não é preciso”

Apesar de às vezes me sentir numa caverna do cosmos
Com o peito entrevado por causa das amarguras da vida
Nunca estarei só pois minha alma ainda habita a poesia
E de lá trago celestidades que alimentam meu ser carente.

Quando eu quero respirar música na minha alma nau
(Tempos de solidão e de tristeza que não são desse mundo)
Então eu leio um poema ou escrevo uma letra para blues
E coloco para fora do espírito todas as teias de sofrimento.

É como compor um blues quando se pensa em se matar
Porque a arte é uma libertação, e escrever algum poema
Deixa o rastro de nossa existência com toda sensibilidade
Na tábua de carne da terra ainda precisando de muita luz.

Nunca estarei só pois os poemas me fazem companhia
Habito um espaço letral que me refrigera e me revigora

Meu reino não é desse mundo. Como um poeta lusonauta
Vou compondo a minha página de rosto na sobrevivência.

-0-

Silas Correa Leite, Itararé, Cidade Poema
E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogues: http://www.portas-lapsos.zip.net
Ou: http://www.campodetrigocomcorvos.zip.net
Poema da Série “Éramos Blues”

quarta-feira, 3 de março de 2010

Resenha Crítica livro Ideias Noturnas de Eduardo Sabino

Pequena Resenha Crítica

“Ideias Noturnas - Sobre a Grandeza dos Dias”, Livro de Contos de Eduardo Sabino

“O dia-a-dia não precisa ser extraordinário para
ser interessante. O cotidiano é riquíssimo de assuntos
e acontecências de toda espécie – fora e dentro da gente.
É só ficar com as antenas ligadas – as antenas da
curiosidade dos sentidos e dos sentimentos, de
senso critico, de senso poético, sem
esquecer do importantíssimo e
indispensável senso de humor”

Tatiana Belinsky

Você não consegue ler o livro de Contos “Idéias Noturnas” (Editora Novo Século, SP, 2009, 120 páginas, Série Novos Talentos da Literatura Brasileira) de uma só levada, a um só termo. Você é inesperadamente surpreendido na pegada de lê-lo e saber que tem que respirar a leitura, de alguma forma por si mesmo e de per-si, pontuando-a. Parar. Stop. Voltar a tomar pé e pulso no verbo ler. Reler. Porque cada vez que sondando antevê, “pensa” que é, que sonda o arremedo narrativo do devir, o tema e o andamento, mas tudo o que sentia parecer na verdade não é. Contos incomuns, algo (raros) estranhos, por assim dizer como elogio. Tiram você da lerdeza do ler puro e simples para uma sentição do que lê e admira. Grandeza dos Dias? Dos escritos também.

Os contos de Eduardo Sabino são claramente (literalmente) diferenciados. Escreve com uma boniteza que reveste a surpresa da contação em agradável prazer de leitura. Já ganhador de Concurso, participante de antologias, colaborando com veículos de comunicação, inclusive sites, é também editor da revista eletrônica “Caosletras.blogspot.com”. Nasceu em 1986, e, sendo tão novo e tão bom, denso, contundente que seja, é encanto gratificante sabê-lo e conhecer desenhos da escrita dele nesse novo livro de contos.

Otimamente bem Prefaciado por Rinaldo de Fernandes, que dele aponta com conhecimento de causa: “O protagonista do conto (Purgatório, pg 25) está entre o sonho e a realidade de um cotidiano desbotado(...). A vida eterna não nos resolve a angústia de viver (Eternas Angústias de um Imortal, pg 29)(...). Os contos de Eduardo Sabino, irônicos e intensos, com personagens angustiados, alguns à borda do desespero, não raro flagrados em situação de pobreza(...)”. Pois é, ironias, seres (quase-seres/sub-seres), animais, máscaras, monstros, vírus, loucuras... baratas. Doce Lar? Não há nexo na vida real.

Purgatório é sim, um conto sobre um “ser” urbanóide no entre-subsolo de um elevador; sobe, desce, lamurias, contemplações, martírios; reinando. O ser que incabe em si. Desconexões. Vazios. Impertinências (e um olhar ferino) do escritor retratando o ser de si no que vê, sente, repagina; em páginas de restos até porventura rotos que assim sejam. O olhar aproximando da trajetória alheia. “Todos abençoados porque estão vivos. Abençoados porque morrerão” (pg 31). Santo Deus!

Abismo (pg 33) uma das melhores criações do livro. Linda ficção. O abismo é viver; que é ser feliz, que é (talvez?) a própria estupidez de tentar ser Ser... A retina do escritor reformatando aspectos invisíveis, risíveis, verossímeis... criados, imaginários; resgatados também da rudeza dos dias... Sim, diz Eduardo Sabino, é preciso estar muito próximo para conversar a língua do olhar. (Céu Aberto, pg 49). Um roteador de sombras, como um eu-endereço-de-mim, em mim e no outro. “La Sombra”, belo conto, pg. 53, especifica o norte (mote?), o estilo: “La Sombra, a essas alturas um vulto com olhos amarelos e fiapos de cabelo, sugeriu que poderia haver uma esperança se os outros enxergassem melhor o que achavam tratar de meros contornos desprovidos de luz(...).

Eduardo Sabino joga luzes letrais em contornos que redescobre, pincela, amalgamado capta nuances, enlivra desafetos afins, defeitos de fabricação do humanus. De heróis a anônimos, povoando a criação (O Herói e o Escuro, pg 57) a situações-conflitos, rostos e trevas, ideias verbais (aqui noturnizadas). Seres?. Retratando tristezas que nascem e morrem a cada dia. What a Wonderful World?

Banzo (pg 75) emociona, cala fundo. Dói no literal. O melhor dos trabalhos. E por aí vai, O Inquilino, O Jardim Encantado, e outros tantos do mesmo gabarito. Eduardo Sabino relata aspectos (de condições humanas) entre espectros sub-existenciais até. De se ler com prazer, mais, entrar na alma da contação, satisfazer-se, sendo a leitura de “Idéias Noturnas” um imenso (muito) prazer. É o autor com talento dando voz aos desvalidos, aos tantos instantes-trevas da vida, inclusive a fragmentos de vidas retorcidas. Senti-las é isso. Escrever sobre elas, dando peso e fermento; purgações, coisa de quem está fazendo muito bem o que se propõe. In/purezas no pântano da condição humana? O criador se encontra no(a) self?

Nesses tenebrosos dias em que ando muito triste sozinho, escrevendo na pele do espírito a dor de um momento difícil, nervos frágeis à flor da pele, a leitura circunstancial do livro colocou um (algum) certo sentir novo (e revisitado no íntimo) em mim, como se tudo fosse mesmo só isso, cara pálida, nascer, sobreviver, morrer, no durante contorcer-se com a nossa dor, a dor dos outros, e, ainda assim e por isso mesmo captar a grandeza dos dias. Será o impossível? Tudo a Ser.

Entrar no mundo criacional de Eduardo Sabino é ter a sensação de que se lê uma história que nasceu por si mesma, em si mesma, como referendou Julio Cortazar. E assim Eduardo Sabino acertou em cheio, acertou a mão. É do ramo e muito bem conhece do oficio e da linguagem de. Contos para se ler com o olhar, afinando-se na riqueza de quem sabe dar vazão a querelas talvez corriqueiras que parecem sair da esquina do olhar; de um beiço de vida, num clarear de tardes e pertencimentos de seres que também são a nossa cara, pois a existêncialização não é nem uma herança e nem uma evolução apenas, mas, um certo modo de nos envolvermos com o sentido social-comunitário de nos fazermos em cada natureza de criadores e criaturas, feito espécies assim de “antenas” (parabolizadas) de nosso tempo, registrando tudo, doa a quem doer, custe o que custar. E dói muito mais em nós, sentidores, entre prismas e colchas de retalhos com sabenças sensíveis de foro íntimo. Goethe diz que “qualquer coisa que formos capaz de fazermos ou que sonhamos que somos capazes, devemos começar a fazer, pois a coragem traz consigo gênio, poder e magia”.

“Idéias Noturnas” é a magnitude de tudo isso e um rebite a mais. Sintam-se humanóides. Bem-vindos ao mundo literário de Eduardo Sabino e suas fragrâncias de dias cheio de ideias literariamente clarificadas.
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Silas Correa Leite – Santa Itararé das Artes, SP, Brasil
E-mail: poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net
Autor de CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, Contos, Editora Design, SC

sábado, 30 de janeiro de 2010

Romance Dois Irmãos de Milton Hatoum, Resenha Crítica





Pequena Resenha Crítica


“ZANA”, A Melhor Mãe da Literatura Brasileira
(Romance “Dois Irmãos” de Milton Hatoum)



“Ficção é perder o olho(...)”

Colum McCann





Quando você acaba de ler o belíssimo romance “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum, Editora Companhia de Bolso, além de você se encontrar em júbilo com a qualidade da obra, ficar com gosto de quero mais no paladar aguçado, ainda sai da leitura encorpado com o tamanho volume da Mãe dos dois irmãos que são elevados e revelados em todos os sentidos pela proposta do livro-obra, um clássico da literatura brasileira contemporânea. Sim, contundentes, paradoxais, Yaqub e Omar saltam aos olhos, mas, e a bendita (maldita?) Mãe?

A Mãe ZANA dos meninos no palco de Manaus, é, certamente, a melhor mãe retratada no historial da literatura brasileira como um todo. Retratando os dois irmãos em contundências e agonias, revelando-os de alto a baixo, na fluente narrativa cativadora e de qualidade, o autor está se nos apresentando página por página a mãe ZANA que gerou os gêmeos, a mãe que os amou, que os estragou e por assim dizer na criação fundou a tragédia continuada da familia até o fim.

Sim, Milton Hatoum soberbo na linguagem e retratando um lar, na mãe disparou consubstancialmente o foco (triste), o eixo (duro), o centro (amargurado), retratando olhares, afetos, resignações, buscas e perdas em cada filhote que de si mesmo por assim dizer eram uma continuação dos lados ambíguos dela. Já pensou?

“Meu querido, meus olhos, minha vida”, diz Zana chorando, logo às páginas 13 do romance. Para Yaqub, o gêmeo que se ausentara no Líbano, capricho de Halim e dela mesma no desdizer. Lembranças e pesadelos de um mundo imponderável. Literalmente a mãe entre a cruz e a espada, dose dupla de si mesma, pendendo mais para o Caçula, o atinado, o atrevido, o atirado, vendo as coisas de cima de sua pose, o louco e vaidoso. Quem pariu que embalasse? Vá saber. Quem tem mãe não tem medo, disse Henfil. Mas uma mãe como Zana é uma loucura.

Yaqub de uma coragem escondida, recalcada, acalcada pela tendência da mãe pelo perdido. Mães sabem o que criam. E ajudam a alimentar o monstro de cada ego, cada resignação-toleima, dando corda e calço, literalmente embalando. Só as mães são felizes, cantou Cazuza, ele mesmo um Omar em verso, prosa e música. Quase um pierrô retrocesso.

Como uma fábula pós-moderna da história bíblica de Abel e Caim, com peculiaridades boas e ruins de um lado e de outro, de algum modo sem o desfecho exatamente fatal mas o próprio tácito fatalismo em si corroendo imagens e engrenagens íntimas, entrecortando toda a história muito belamente estruturada em narrativa cativadora e fluente na contação densa, que, por isso mesmo, também virou um dos mais belos romances da literatura brasileira, que traz a Mãe “Zana” como a melhor matriarca-matrona (não necessariamente megera) da própria literatura como um todo.

“Uma saga iluminada e profundamente emocionante” diz Alberto Manguel, in, The Independent, do livro Dois Irmãos, ambientado na urbanidade amazônica em tempos de guerra mundial, depois da ditadura nos bastidores em pinceladas estimativas, o amor e o ódio degladiando no meio de um mesmo sangue e circulo vicioso familiar, Yaqub e Omar, cicatrizes e sombras – e a superprotetora Mãe Zana, naquele que já é considerado por muitos críticos como o melhor romance brasileiro dos quinze últimos anos. O Século XXX sangra desde logo.

Yaqub, casulo de si mesmo borboleteando futuras intenções, ovelha perdida, boto rosa, pássaro ferido, montanhês rústico, aqui e ali apreensivo, derrotado. Silencial. Um falso-covarde com guardadas intenções maquiavélicas? O caçula e cínico Omar com escárnio e o mesmo sangue nas mãos. Lobo de si mesmo. Um personagem e tanto para as ponderações de Freud. Já pensou? A mesma carne em trincheiras opostas. O caçula e cara e a coragem da mãe. Yaqub sem nenhum papo-aranha, acanhado, desconfiado. Ódio, ciúme, e o zelo exagerado de Zana dando o tom às vezes descolorido das relações em conflito. Supermãe às vezes dá nisso. Não sabe nunca de que lado está, mesmo tendo escolhido um. Yaqub: “Cabeça e inteligência, isso ele tem de sobra”, diz Zana, a Mãe. Matematicamente introspectivo. Solidão-cangalha.

Omar com suas diabruras era da pá virada, aprontando todas, lunático, sexista, vivendo com emoção, a juventude em viço, as serenatas que enchiam de luzes as cativadoras noites de Manaus. Céu e inferno em si mesmo, o radical em choque e enfrentações. Audácias juvenis. Transgressor. As ressacas das noites de prazer. A busca de si nas transgressões de tudo e de todos, zelo excessivo, mimo doentio da genitora que via no escolhido a morte eminente. E Zana dando o aval de alguma maneira, custeando-o.

Zana impávida, colossal, serenidade fingida, a Mãe e os ímpetos das imprudências. Depois ambos no Galinheiro dos Vândalos, que os igualou. Mas a mãe sempre sabe onde a porca torce o rabo. Pelo menos Zana protegia o atrevido e censurava o certinho. Orgulho e fé. A carnadura do casal ali expropriando esperanças e amarguras... Ruminando situações que tentava apaziguar. Yaqub: “A mãe, com o olhar maravilhado, não sabia se mirava o filho ou a imagem dele”. Espelhos revisitados alimentam neuras. O abismo mais temível estava em casa, diz o autor, às páginas 33. Halim não podia evitar. Era um mero pião no jogo das aparências.

O narrador que se revela ao final, comenta: “Omar, mordido de ciúme, não tocou no nome do irmão. E a mãe, pura ânsia, dizia que o filho que parte pela segunda vez não volta nunca mais”(in, pg 35). Ora dando um enfoque criacional, ora saltando para uma outra ótica, sempre levando e trazendo contações, passados, futuros, implicações, o escritor vai iluminando atos do cenário em que a tragédia ainda está pertinente, parada no ar mas nunca vaza, nem escoa radicalmente. O leitor é que vai antevendo, costurando na cabeça as linhas de raciocínio, daquilo que Milton Hatoum faz que revela mas cabe ao apreciador de boa escrita ter sua própria “leitura”. Não há leitura inocente, nem escrita inocente. O que passou é prólogo, diz Shakespeare. Jorge Luis Borges dizia que a raiz da linguagem é irracional e de caráter mágico...

Yaqub, o tempo servido no Líbano e o que lá sofreu, permanece um ponto de interrogação no romance todo. Pairando sobre aparências e relações familiares conturbadas de lado a lado. A eternidade pode estar no que se cala. Histórias que se cruzam, vidas em trânsito, vaivém de núcleos de abandonos, águas como lembranças remotas que saem e chegam, o remo da palavra ornando a embarcação do livro em contracorrentes. O leitor navegando a alma nau de cada personagem. O autor mascateando parágrafos para seduzir o leitor pelo prazer da leitura. Zana, sempre em intimidade com os filhos, uma teimosia de tocar, proteger, talvez desconfiguar a personalidade de um e de outro, aqui e ali errando mão, rumos e entendimentos. Talvez cega de tanto ver?.

“Zana mandava e desmandava na casa, na empregada, nos filhos. Ele (Halim, o marido, o pai), paciência de Jó apaixonado e ardente, aceitava, engolia cobras e lagartos, sempre fazendo as vontades dela (Zana) (...), mimando-a, tocando o alaúde só para ela, como costumava dizer”( pg 41). Milton Hatoum tem poesia nas veias narrativas; em todo o transcorrer do livro há janelas de poesia, pura prosa poética. Achados. As coisas não têm alma, nem carne? Todos foram vítimas de Zana. Parece que o diabo torce para que uma mãe escolha um filho. Talvez Deus por outro lado desperte um lado de certo instinto selvagem na mãe, a natureza-mãe, para que proteja o que parece forte mas é só um ponto de fuga... Será o impossível?

O autor Milton Hatoum pincelando as chagas e as luzes da mãe. Prismas. “O filho de Halim (pai): forte, viril com todas, mas com a mãe se desmanchava em chamegos ou tremia como taquara verde. Vá entender o poder de uma mãe. Daquela Zana(...) Quando o destino de um filho está em jogo, nenhum detetive do mundo consegue mais pistas do que uma mãe”(pg. 104)”. Caçada de mãe é tempestade (pg. 110). No fundo Omar era cúmplice de sua própria fraqueza, de uma escolha mais poderosa do que ele; ele não podia muito contra a decisão da mãe, para quem parecia dever uma boa parte de sua vida e de seus sentimentos(...). Tentou se conformar com essa frustração que ele supunha pacificadora, e nunca mais ousou entregar-se mulher nenhuma(...)”

A Mãe Zana que queria paz mas sem querer fomentava o embate. A construção insabidamente desconstruída. As mães bem sabem onde põem a alma, o coração, as mãos. Mas o instinto protecional exacerbado pode criar infernos em clãs. As desgraças todas da história acontecem por amor (demais, aloprado) e em familia. Milton Hatoum soube colocar a mãe no meio; nos meandros historiais, com música, harmonia e ritmo num romance cheia de enlevo. Acertou na Mãe também. “Alguns dos nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos” (Milton Hatoum, pg 196). Leia o livro e se sinta em casa. Êpa, quero dizer, sinta-se humamente dentro de você mesmo. Talvez, na verdade, ao contrário do que diz o rock do Cazuza, só as mãe são perfeitamente infelizes com o que afinal sangraram como filhotes de suas próprias amarguras.

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Silas Correa Leite, Santa Itararé das Artes, São Paulo, Brasil – Jornalista Comunitário, Especialista em Educação, Conselheiro em Direitos Humanos (SP)
Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, 2009, Salvador Bahia, Giz Editorial
E-mail:
poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Museu da Língua Portuguesa




Museu da Língua Portuguesa:

Pífio Padrão Global


Não acredito em arte

Que não seja libertação


Manuel Bandeira


-Como todo cidadão comum, tomei um ônibus na Vila Sônia, zona oeste de São Paulo, linha Estação da Luz, e lá fui, com a musa-vítima açodada pela propaganda, ver o tal Museu da Língua Portuguesa na Praça da Luz, centro velho roto e abandonado de São Paulo. Expectativa enorme, claro, muito mais para um poeta que estuda a língua-mátria, como diz o Caetano Veloso. Fui na onda midiática do momento. Fui interessado lá - comprovante número 5202 - ver o tal Museu da Língua Portuguesa, torcendo para vibrar com o sucesso aventado, crendo que iria adorar. Pobre e ledo engano. Infelizmente. -Desci no lado da Cásper Líbero (ponto final da linha do péssimo serviço de transporte coletivo urbano piorado demais) e, SURPRESA!. Desci e fiquei sem saber pra que lado era o tal lado do tal não apresentável estético Museu. Nenhuma placa, nenhum sinal, nenhum aviso, nada de nada. Incompetência estrutural, inclusive para incautos Turistas desavisados. Entrei na Estação perdidinho. Gente de monte, sujeira, correria, uma loucura - a pobre gente brasileira e a nefasta propaganda enganosa vendendo gato por lebrea - e nada de placa, sinal, aviso, gerenciamento. Quase atropelado fui em busca de uma só possível autoridade vigiadora ou informante local. Lá pelas tantas, um guardinha muito mal humorado, cara de azedo deu a dica com um humor risível irônico: -A filona é ali, sapecou ele, rindo do trouxa perguntador e curioso de uma figa. Sim, interessados em cultura, ao lado, sentido da Praça da Luz, num local lotado de camelôs verdadeiramente achacando eventuais clientes-patos, a fila enorme e vergonhosa. De dar dó. Ao lado carros mal-estacionados, ônibus de excursões sem estrutura, montoeira de vendedores de tudo quanto é bugiganga. Nenhum fiscal, policial, sequer os da indústria de multa. Descaso público total. Crianças, jovens, idosos, estatutos ético-humanistas à parte, foram na fiuza da propaganda enganosa e ali estavam perdidos e entregues aos desmandos generalizados, mais o preços-roubos dos vendedores mal-encarados em contrabandos informais ou no neoescravismo das terceirizações invadindo cafundós, filas, ermos e sombras. E os direitos humanos dos fileiros interessados em cultura?. Vão sacando.Quase uma hora na fila da incompetência estrutural. Sol de rachar mamona, calor doentio, perdição de tudo quanto é tipo, poluição humana dos piores elementos mercadores possíveis, mau cheiro de fedô e chega gente perdida, sai gente frustrada, quando, a bem da verdade, nem poderia em tão pouco tempo e pouco espaço organizacional ter ônibus do interior em tamanha bagunça técnico-administrativa. Deveria ser proibido. Era pegar ou largar. Desordem e reclamos. Chegando ao lugar do filtro com catraca, fila mal arrumada pra pegar um bendito tíquete, quando uma moça nervosinha da silva e amadora para o contexto também pouco funcional, queria tirar-me a bolsa de mão na marra, como se fosse mochila. Tive que, cidadão-contribuinte peitá-la sob o vezo ético. Degradante. Constrangedor. Não sabia a diferença entre uma coisa ou outra. Cabide de empregos desproposital? Aliás, não podia nada quando tudo é cultural e educação faz gosto. Ver pra crer.Aí era esperar o elevador-dinossauro. Sem ascensorista, um guardinha que ia e vinha, coitado, entre atropelos, avisou depressinha e sufocado pela mixórdia generalizada que era para irmos direto e reto pro primeiro andar que o segundo e terceiro estavam lotados. Acredite se quiser, mais o bicho velho subiu diretinho rangendo o peso morto exatamente para o terceiro andar e ninguém apertou nada. Inaugurar obras de supetão para mostrar que é o que não é, é ridículo. Os desgovernos tucano-liberais nunca fizeram nada pela cultura, nem pela educação, porque aquela obra populista e eleitoreira então? Mas ali estávamos e fomos ver o desboque. Uma ou outra coisa trivial e comum que prestasse, ainda assim mal-e-mal visto de passagem. O inédito e supostamente novo, nem é tão novo, pioneiro, inédito ou de vanguarda assim. Confusões de sons e letramentos como macadames. Gírias imperfeitamente incorretas e politicamente obtusas. Os poemas pintados num corredor demasiado estreito até que ficarem bem, apesar das escolhas poéticas bem suspeitas e também até umas letras de mpb bem jecas totais. Pior: o padrão global tornou pífia a minha expectativa. Já pensou? Tevês e tevês. Nada de novo no óbvio. Pouca tecnologia de ponta que causasse interesse, nem ninguém para ordenar interesses de usuários curiosos. Poemas nos tijolos entre lixões. Coisa bobinha de dar dó. Não acrescentou nada a nada. Plínio Marcos iria morrer de ir. Pobre Sampa. O tal olho mágico que mostrava o diferente no longe foi razoável, mas, acreditem, algo pueril no lúdico de percurso entre tarecos. O espelho de se ver o texto ao contrário na água foi uma boa idéia pingada ali no contexto todo. Criações em saquinhos pendurados no ar. Não acrescentou interesse aproveitável que fosse. Telas-panos corrigidas do Guimarães Rosa. Por que não as consertadas, páginas especiais, com mais historiação sobre um dos maiores autores brasileiro? Para não dizer que faltou Machado de Assis e grandes poetas em exposições por atacado. Esperava mais. Mas não mais do mesmo. Ninguém para ciceronar. Sons e imagens numa mistura ruim para o ler/ver (pensar/sentir) literatura, palavras, sons. Um achado fraco e o pessoal que criou o tal museu não foi fundo, com suspeitíssimos nomes (artes?...) ali de quem chegou indagora, talvez, num crescendo nem chegará perto do Machado e Guimarães, mas já estava inserido ali de alguma maneira suspeita, e assim também esteve bolando o projeto em que se incluiu. Difícil acreditar, não é?. Tráfico de influência ou intermediação de foro íntimo e interesse próprio, midiático-editorial, via padrão global por isso mesmo no geral rastaquara, bobinho na resultante final, nota seis, se tanto. O espaço até exíguo, assim mesmo exigia mais capricho, coragem limpa, lúcida, criativa. Criação fora de série não faz mal a ninguém. Museu que já nasceu velho. Da Língua indizível que ali foi prostituída de alguma forma. Portuguesa mas nem tanto. Um museu de blefes, chinfrim mesmo. Oswald de Andrade e Mário de Andrade, da semana da Arte Moderna (1922) teriam vergonha. Faltou palavras. É um Museu a la Faustão: grande e vazio, esteticamente sofrível e vernacularmente arigó. Na mídia, mas, só tamanho não é documento artístico-cultural-humanista, nem cult. Por que a UBE-União Brasileira de Escritores não peitou o açodado projeto, se tem mais cabedal histórico, acervo e lastro?. Eu não gostei. Senti uma frustração geral entre pessoas da classe A e B, com a C e D acreditando mais na propaganda do que na arte e na cultura e na língua propriamente dita. Aconselho os amigos interessados em qualidade cultural, a visitarem a maravilhosa Pinacoteca. O tal Museu da Língua Portuguesa, perto da Pinacoteca é um beco de nadas e ninguéns, um cortiço de toleimas pseudocriativas imprestáveis na geléia geral, grosso modo, um gueto de modernosos que, depois que deixar de ser moda nodal, entrando uma gestão cultural séria, visionária - ai de ti paulicéia desvairada - vai demolir tudo e mandar recomeçar do zero, pois, afinal, depois que vi o ralo e raso e, portanto, claro, não vi algo de nada, fiquei com a impressão que fui logrado por algum motivo, de alguma maneira. Grátis é caro. Entrar na fila quilométrica para ver um amontoado de imagens e palavras que não colam, tudo aquilo com a cara do Fantástico pareceu-me um ledo engodo. Faltou luz criativa ali em frente a Estação da Luz. Será que tem gente que não enxerga no claro?Em ano de Copa do Mundo, de brasileiro no espaço e de eleições, parece discurso ímprobo jogado fora (como erário é espaço público inaproveitado - e falsa cultura literária também jogada fora), cabeças vazias pensando que são o que não são, jogo de cena para ganhar espaço na mídia com arte que não pára em pé. Bola fora mesmo. Pariram um elefante branco lítero-cultural. O lixo não pode ser pseudopop com erário público.E ainda ouvi dizer (ou ouvi sentir, ouvi soar em ouvidos de mercadores) que a sagrada Maria Bethânia podia ser captada na balbúrdia da feira declamando Fernando Pessoa. Será o impossível? Quem gostou é mal formado.

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Poeta Silas Correa LeiteCrítico Social, Jornalista ComunitárioPós-graduado em Literatura na Comunicação (ECA), e Direitos Humanos e Democracia (USP)


Autor de Porta-Lapsos, Poemas, 2005